Artigo 11

Ter um porquê

01 de setembro de 2026

O dia começa, as horas passam, começamos nossas tarefas e seguimos com elas ao longo do dia. À noite, encerramos o ciclo. No dia seguinte, tudo recomeça.

E assim seguimos por semanas, meses, anos… pela vida inteira.

A rotina diária entre acordar, trabalhar e encerrar mais um dia

Nessa caminhada, haverá momentos de altos e baixos. Algumas coisas são inevitáveis e fazem parte da experiência de viver.

Conheço pessoas que passaram — ou ainda passam — por todo tipo de dificuldade. Algumas dessas dores eu também já enfrentei e, por isso, consigo compreender um pouco do que sentiram. Outras, talvez eu nunca consiga compreender completamente.

Mas algo sempre me chamou a atenção: apesar de tudo, elas seguiram adiante, construindo, dia após dia, um futuro possível.

De alguma maneira, encontraram um motivo.

Um porquê para levantar da cama todos os dias e enfrentar o dia que começa.

Essa ideia me faz lembrar de Viktor Frankl. No livro Em Busca de Sentido — Um Psicólogo no Campo de Concentração, ele relata sua experiência como prisioneiro nos campos de concentração nazistas e reflete sobre aquilo que ajudava algumas pessoas a continuar mesmo diante de condições extremas.

Ao falar da importância de encontrar um sentido e enxergar um objetivo futuro, Frankl recorre a uma ideia do filósofo Friedrich Nietzsche: quem encontra um porquê para viver consegue enfrentar melhor os “comos” que a vida lhe apresenta.

Nesse caso, não se tratava apenas de uma reflexão filosófica. Frankl escrevia a partir de uma experiência que havia vivido e do comportamento humano que observara em uma das situações mais extremas que alguém poderia enfrentar.

Ter um porquê não significa que as dificuldades desaparecem. Não significa acordar sempre motivado, enxergar tudo de maneira positiva ou acreditar que, no final, tudo dará certo.

Talvez seja justamente o contrário.

O porquê se torna mais importante quando as coisas não estão bem.

Dificuldades da vida representadas por problemas nos estudos, perda do emprego e doença

É fácil caminhar quando o caminho é agradável. Difícil é encontrar uma razão para continuar quando aparecem o cansaço, a frustração, a perda ou a sensação de que aquilo que fazemos não está nos levando a lugar algum.

Foi pensando nisso que me lembrei de um vídeo de formatura a que assisti algum tempo atrás. O representante da turma leu um texto cuja autoria não conheço.

A mensagem comparava nossa existência com elementos da natureza: o rio que oferece sua água, a árvore que produz seus frutos, o sol que ilumina e a flor que espalha seu perfume.

Aquilo despertou em mim uma reflexão que permaneceu comigo:

A nossa felicidade também pode estar ligada à felicidade que somos capazes de proporcionar aos outros.

Talvez exista aí uma pista importante sobre o nosso porquê.

Reflexão

Nem todo porquê termina em nós

Quando pensamos em nossos objetivos, é natural pensarmos naquilo que desejamos conquistar.

Uma profissão. Uma casa. Uma viagem. Segurança financeira. Conhecimento. Reconhecimento. Um projeto.

Não há nada de errado nisso.

Mas talvez os motivos mais profundos para continuar dificilmente terminem apenas em nós mesmos.

Para alguém, o porquê pode ser um filho.

Para outro, a pessoa com quem escolheu compartilhar a vida.

Pode ser cuidar dos pais, ensinar alguma coisa a alguém, desenvolver um trabalho que faça diferença, construir algo que permanecerá depois de nós ou simplesmente tornar um pouco melhor a vida das pessoas que encontramos pelo caminho.

Às vezes, nem percebemos que somos parte do porquê de outra pessoa.

E alguém também pode fazer parte do nosso.

Conquistas que podem representar um porquê, como a casa própria, a graduação e a família

O porquê não torna o caminho fácil

Encontrar um motivo não nos torna imunes ao sofrimento.

Continuaremos tendo dias em que será difícil levantar da cama. Haverá planos que não funcionarão, pessoas que partirão, escolhas que precisaremos rever e momentos em que simplesmente não saberemos qual direção seguir.

Um porquê não elimina essas dificuldades.

Ele nos dá uma razão para continuar caminhando apesar delas.

E talvez nosso porquê também mude ao longo da vida.

Aquilo que nos fazia levantar aos vinte anos pode não ser o mesmo aos quarenta, aos sessenta ou aos oitenta. Algumas conquistas perdem importância. Outras coisas, que antes pareciam pequenas, passam a ocupar um espaço enorme.

Talvez por isso seja importante, de tempos em tempos, olhar para a própria vida e perguntar:

Por que estou fazendo o que faço?

Para onde estou caminhando?

Quem caminha comigo?

E para quem aquilo que faço também importa?

Porque amanhã o dia começará novamente.

As horas passarão.

Teremos compromissos, problemas para resolver, coisas para começar e outras para terminar.

À noite, encerraremos mais um ciclo.

E no dia seguinte tudo recomeçará.

Pergunta

Quando amanhã começar mais uma vez, qual será o seu porquê para levantar da cama?


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Silvio Lima

Autor do Alimentar a Alma.

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