Artigo 10
Ter a resposta basta?
26 de agosto de 2026
Experiência
Há muito tempo, quando a comunicação entre as pessoas levava dias, às vezes meses, e os deslocamentos aconteciam por caminhos de terra, surgiam nas cidades pessoas consideradas fora do comum. Eram tratadas como gurus, pessoas a quem se atribuía um elevado conhecimento sobre diferentes assuntos.
Algumas prometiam a cura para todos os males, quase chegando a oferecer a vida eterna. Ao chegar a uma nova cidade, instalavam-se em uma rua movimentada e começavam a apresentar seus produtos.
Conta-se que, em uma dessas cidades, alguém perguntou ao ajudante de um desses gurus se era verdadeira a promessa de vida longa oferecida por um de seus tônicos.
Por alguns instantes, todos ficaram esperando pela resposta.
Sem interromper o trabalho de organizar os frascos na banca, o ajudante respondeu:
— Só posso falar por mim. Faz pouco tempo que comecei a trabalhar para ele e a tomar o tônico.
Alguém imediatamente perguntou:
— E há quanto tempo você trabalha para ele?
O ajudante respondeu:
— Cento e vinte anos.

É possível que muita gente acreditasse. Muitas vezes queremos apenas uma confirmação daquilo em que já acreditamos.
Não analisamos, não questionamos, não avaliamos a resposta.
Reflexão
Antes, precisávamos encontrar o guru. Hoje, carregamos no bolso ferramentas capazes de responder praticamente qualquer pergunta em segundos. Podemos perguntar o que preparar para o jantar, o que vestir em uma festa, como realizar determinada tarefa ou até pedir orientação para decisões muito mais importantes. Muitas vezes, estamos tão interessados no resultado que esquecemos de questionar aquilo que recebemos.

Receber uma resposta não nos dispensa de pensar.
Uma resposta pode parecer convincente, estar bem escrita e até confirmar aquilo que já imaginávamos. Nada disso, porém, garante que esteja correta. Dependendo da importância da decisão, precisamos perguntar de onde veio aquela informação, quais argumentos a sustentam e se existem outras formas de enxergar o mesmo problema.
Não basta ter a resposta, é preciso algo que a sustente quando questionada.
Ter acesso à informação não significa necessariamente adquirir conhecimento. Existe uma jornada entre receber uma informação e transformá-la em conhecimento. Aquilo que sabemos hoje se apoia em conhecimentos anteriores, experiências vividas, erros, acertos e relações que fomos capazes de estabelecer ao longo do caminho.
A cada nova experiência, recebemos informações e produzimos resultados que podem se conectar ao que já sabemos. São como elos de uma corrente: quanto mais conseguimos compreender essas relações, mais consistente se torna o conhecimento construído.
Quando recebemos apenas o resultado final, sem compreender minimamente como ele foi construído ou em que se sustenta, podemos até obter a resposta correta. Mas talvez nossa capacidade permaneça exatamente onde estava antes.

Ganhamos uma informação, mas não necessariamente conhecimento.
Pergunta
Quando recebemos uma resposta, procuramos saber se ela é verdadeira ou apenas se ela confirma aquilo em que queremos acreditar?
Essa resposta gerou conhecimento ou apenas acrescentou informação?