Artigo 16
Crianças falam demais
18 de setembro de 2026
A maioria dos pais de primeira viagem — digo, de primeiro filho — fica ansiosa esperando ouvir as primeiras palavras ditas pelo bebê.
As estratégias são muitas: repetir centenas de vezes uma palavra, uma frase, um nome, até que um dia a criança resolva repetir.
Minha mãe acreditava em simpatias. Aqueles conhecimentos dos antepassados que resistiram à passagem do tempo e que ainda hoje são praticados em cidades pequenas. Talvez também nas grandes, mas sem muito alarde, para evitar as críticas de quem não acredita.
Existem simpatias até para ajudar uma criança a falar.
Em uma delas, a mãe deve colocar próximo da boca da criança um pintinho recém-nascido, para que ele pie suavemente perto de seus lábios.
Em outra, passa-se ou gira-se uma chave antiga perto da boca da criança enquanto se diz:
— Destrava.

Você pode acreditar ou não. Mas quem faz acredita.
E talvez seja justamente essa crença que permita que algumas tradições atravessem tantas gerações.
Naturalmente, tudo tem seu tempo de desenvolvimento, e os pais precisam estar atentos quando percebem que alguma coisa não parece seguir seu curso esperado.
Conheço uma família em que certamente fizeram uma dessas simpatias.
Qual delas, não sei.
A pequena fala muito.
E surpreende todo mundo.
Dizem que as crianças são como esponjas. Absorvem tudo o que veem e ouvem: conversas de adultos, de outras crianças, expressões, comportamentos.
De repente, soltam alguma coisa que ninguém sabe de onde veio e, assim, acrescentam mais uma pérola à coleção de histórias da família.
Certa vez numa tarde de domingo, os avós tinham acabado de chegar da roça. A mãe da pequena estava vindo e chegaria em poucos minutos.
A netinha perguntou ao avô sobre a mãe e depois pediu que ele ligasse a televisão para assistir a um desenho na sala.
O avô foi com ela, ligou a TV e perguntou qual desenho ela queria assistir.
Ela se deitou no sofá e, sem qualquer preparação, disse:
— Te amo, vô.

Nós estávamos na cozinha.
Pouco depois, o avô voltou contando o que ela tinha dito.
Ninguém esperava aquilo.
Talvez justamente por isso aquelas três palavras tenham tido tanto valor.
Se ela continuará falando assim quando for adulta, ninguém sabe.
Só o tempo tem a resposta.
Reflexão
No processo de crescimento e amadurecimento, vamos aprendendo a controlar aquilo que dizemos.
Talvez seja necessário.
Assim como uma árvore precisa de poda, da retirada de alguns galhos para receber mais luz e continuar crescendo, nós também deixamos algumas coisas pelo caminho.

A resposta imediata dá lugar à pausa.
À respiração antes da fala.
Ao pensamento:
Será que devo dizer isso?
E isso também é amadurecer.
O problema talvez apareça quando a poda passa do necessário.
Quando deixamos de dizer alguma coisa porque acreditamos que é óbvia.
“Ela sabe que gosto dela.”
“Ele sabe que sou grato.”
“Meus filhos sabem que tenho orgulho deles.”
“Meus pais sabem que eu os amo.”
Sabem?
Talvez saibam.
Mas existe uma diferença entre imaginar que alguém sabe e ouvir isso daquela pessoa.
Aquela menina poderia simplesmente ter assistido ao desenho.
O avô poderia ter ligado a televisão e voltado para a cozinha.
Nada estaria errado.
Mas ela disse:
— Te amo, vô.
Sem calcular se era necessário.
Sem se perguntar se ele já sabia.
Sem pensar duas vezes.
Talvez crianças falem demais.
Mas talvez nós, adultos, em alguns momentos, tenhamos aprendido a falar de menos.
Pergunta
Qual foi a última vez que você disse: “eu te amo”?