Artigo 07
Que vida eu quero viver dentro desse mundo?
20 de agosto de 2026
Experiência
A definição de um ano é bastante simples: o tempo que a Terra leva para dar uma volta completa ao redor do Sol.
Esta definição científica não afeta em nada o meu conceito de mundo. Mas tudo muda quando começo a pensar o tempo em outros números: décadas, séculos e milênios.
O mundo mudou, continua mudando e, aparentemente, cada vez mais rápido.
Tenho bisavós que nasceram em outro século, por volta de 1890. Viveram uma realidade completamente diferente da que conhecemos hoje. Meus pais não chegaram a conhecer a internet ou os celulares. Talvez a maior transformação tecnológica que tenham presenciado e da qual puderam se beneficiar tenha sido a chegada da televisão.

A cidade onde nasci e ainda moro, em 2026, também conta um pouco dessa transformação. Era uma vila que começou a crescer com a instalação de fábricas. Antes disso, sua economia era basicamente agrícola.
As fábricas trouxeram empregos e atraíram novos moradores. Entre eles estavam meus pais.
A cidade continuou crescendo, algumas vezes lentamente, outras de maneira muito mais rápida, acompanhando o contexto econômico e aquilo que, em cada época, se imaginava como futuro.
Novos moradores continuaram chegando, vindos de diferentes lugares e trazendo consigo seus costumes, histórias e culturas. Alguns se agruparam, criaram comunidades e, pouco a pouco, ajudaram a construir uma nova identidade para aquele lugar.
Quando comecei a trabalhar na capital, São Paulo, essas diferenças ficaram ainda mais evidentes.
A velocidade era outra. As pessoas eram diferentes. As oportunidades eram outras. E as mudanças pareciam acontecer muito mais rapidamente.
Adaptar-se ao novo deixou de ser apenas uma possibilidade. Tornou-se necessário para seguir em frente.
E assim, pouco a pouco, também fui sendo moldado pelas mudanças desse mundo moderno.
Quando visito uma cidade pequena, admiro-me com algumas coisas que deixei de lado. Poder andar tranquilamente por uma praça, sentar e observar o movimento ou simplesmente contemplar um pôr do sol sem os prédios atrapalhando a paisagem.
Nesses momentos, quase não me lembro do celular, do trânsito, das filas ou daquela sensação de estar sempre atrasado — coisas tão presentes no dia a dia de uma cidade grande.
Quem nasceu nos últimos vinte anos foi apresentado a um mundo completamente diferente daquele que eu encontrei.
Tive a oportunidade de acompanhar a transformação de muitos serviços, como os correios e a telefonia. Eu mandava cartas, cartões-postais e esperava ansiosamente pela resposta. Hoje envio um e-mail ou uma mensagem e, muitas vezes, espero que a resposta chegue quase imediatamente.
Quem não conheceu aquela época talvez não consiga perceber da mesma maneira o valor do que existe hoje. E não há culpa alguma nisso. Na verdade, não existem culpados. É apenas uma constatação. Cada geração conhece o mundo que encontra ao chegar.
Mas todas as mudanças pelas quais o mundo passou — e continua passando — trouxeram necessariamente uma melhora para nossas vidas?
No passado, tínhamos grupos de amigos da escola, do bairro e do trabalho. Alguns nos acompanhavam durante longos períodos da vida. Morávamos próximos, frequentávamos os mesmos lugares e, assim, os vínculos permaneciam.
Hoje podemos ter amigos virtuais. Pessoas que conhecemos através das redes sociais, que vivem a milhares de quilômetros de distância e que talvez nunca tenhamos cumprimentado pessoalmente.
Podemos saber o que fizeram durante o dia, conhecer suas opiniões, acompanhar suas viagens, ver fotografias de sua família e conversar instantaneamente.
Mas talvez nunca nos encontremos para tomar um café.
A distância deixou de ser um problema para conhecer novas pessoas. Elas podem estar em outra cidade, estado ou país. Podemos conversar por mensagens, agendar uma call, como se diz hoje em dia, e falar sobre nossos planos e sonhos.

Nunca estivemos tão conectados.
Mas essa conexão também criou uma nova forma de enxergarmos a vida das outras pessoas pelo que elas publicam no dia a dia.
Reflexão
O que vemos nas redes sociais é realmente a vida dessas pessoas?
Dificilmente alguém compartilha o dia em que acordou com dor de cabeça, teve um problema na escola, enfrentou dificuldades no trabalho ou simplesmente não estava bem. Isso acontece, claro, mas é muito menos comum.
E, olhando tudo aquilo, podemos começar a pensar:
Será que só eu sinto isso?
Vemos pessoas vivendo quase como em contos de fadas. O trabalho perfeito, a viagem perfeita, o relacionamento perfeito, o dia perfeito.
Tudo parece perfeito.
Mas sabemos que nenhuma vida é assim o tempo todo.
A tecnologia nos permitiu atravessar distâncias, conhecer pessoas que jamais conheceríamos e acompanhar acontecimentos do outro lado do mundo no instante em que ocorrem. Tudo isso representa uma transformação extraordinária.
Talvez a questão não seja rejeitar esse novo mundo, mas perceber o que estamos fazendo com ele — e o que ele está fazendo conosco.
E isso me leva novamente àquele homem sentado na praça de uma pequena cidade, esperando o pôr do sol.

Que vida é essa sem luzes, sem música alta, sem notificações, sem posts e sem likes?
Talvez, para alguns, pareça uma vida simples demais.
Para mim, naquele momento, acontece justamente o contrário.
Há silêncio. Há tempo. Há presença. Não existe a preocupação de mostrar para alguém onde estamos ou o que estamos fazendo. Existe apenas alguém sentado diante do fim de mais um dia, observando o céu mudar de cor.
Essa é a vida que eu queria para mim.
Talvez eu não possa abandonar tudo aquilo que o mundo moderno trouxe — e nem queira.
Mas posso escolher quanto espaço cada coisa terá na minha vida.
O mundo continuará mudando. Provavelmente cada vez mais rápido.
Talvez o verdadeiro desafio seja não permitir que, no meio de tantas mudanças, percamos a capacidade de escolher a vida que queremos viver.
Pergunta
Que vida você busca?
Você está caminhando para ela?