Artigo 05

Sensação de vazio

17 de agosto de 2026

Experiência

Antes de sermos apresentados a este mundo, passamos meses protegidos no ventre materno, recebendo aquilo de que precisávamos para nos desenvolver. Talvez exista nessa imagem uma boa metáfora para uma busca que nos acompanha pela vida: a vontade de nos sentirmos novamente completos.

Imagino que, a partir do primeiro dia do nascimento, quando o mundo nos recebe, comecemos também uma busca por aquela sensação de conforto. Ao longo da jornada, muitos de nós acumulamos coisas, imaginando que a posse de algo seja um caminho para a felicidade.

Pessoa contemplando a paisagem e olhando para dentro de si

Jorge Bucay, escritor argentino, psicodramaturgo e terapeuta gestáltico, conta em Cuentos para pensar , uma história conhecida como La ciudad de los pozos — A cidade dos poços. O próprio Bucay explica que ouviu o conto de um paciente, que, por sua vez, o havia escutado de Mamerto Menapace.

Quando conheci esse conto, trabalhava com jovens entre 14 e 21 anos, em um momento em que todos estudavam e alguns já trabalhavam. Uma fase da vida cheia de escolhas, sonhos e planos — um terreno fértil para plantar sementes.

Quem lê esse conto logo relaciona seus personagens com pessoas reais.

Naquela cidade não havia pessoas, mas sim poços. Eles se diferenciavam, inicialmente, pela aparência de seus brocais — a abertura que os ligava ao mundo exterior. Alguns eram simples; outros exibiam mármore e metais preciosos.

Com o tempo, porém, surgiu uma nova ideia naquela sociedade: o valor de cada poço passou a ser associado também àquilo que possuía em seu interior. E começaram a enchê-los com objetos cada vez mais valiosos.

Trazendo essa imagem para os nossos dias, poderíamos imaginar esses poços acumulando joias, correntes de ouro, roupas caras, carros, aparelhos de última geração e tantos outros símbolos de riqueza e status. Não necessariamente porque precisassem deles, mas porque aquilo que possuíam também dizia aos outros quem eram — ou quem gostariam de parecer ser.

Bens materiais e símbolos de riqueza e status

Qualquer semelhança com nossa sociedade não é mera coincidência, é constatação.

O ter, a posse, pode satisfazer por um curto período. Depois, a sensação de falta reaparece. Na realidade, talvez nunca tenha desaparecido; estava apenas escondida.

A sensação de falta, de vazio, pode levar algumas pessoas aos excessos, em busca de uma satisfação imediata: excesso de gastos, de comida, de bebida e tantos outros.

Já ouvi dizer que “todo excesso esconde uma falta”. Talvez isso não seja verdade em todas as situações, mas pode nos provocar uma reflexão sobre alguns comportamentos que vemos — nos outros e também em nós mesmos.

Muitas vezes, aquilo que enxergamos tão facilmente nos outros não conseguimos perceber em nós mesmos.

E talvez seja justamente aí que comece a mudança: olhar para dentro.

No conto, um dos poços percebeu que poderia seguir acumulando coisas e tornando-se cada vez mais largo ou tentar descobrir o que existia em sua própria profundidade.

Mas havia um problema.

Para se aprofundar, primeiro precisaria se esvaziar.

Esvaziar-se significava abrir mão de tudo aquilo que havia acumulado. Significava também correr o risco de encontrar apenas… vazio.

Mesmo assim, ele decidiu tentar.

À medida que se esvaziava, conseguia aprofundar-se. Até que, um dia, encontrou água no fundo de si mesmo.

A água transformou não apenas o poço, mas também aquilo que existia ao seu redor. Outro poço decidiu fazer a mesma experiência e também encontrou água.

Mais tarde, os dois descobriram algo ainda mais surpreendente: a água encontrada por ambos vinha do mesmo rio subterrâneo. Eles já não estavam ligados apenas superficialmente, por aquilo que mostravam do lado de fora. Existia entre eles uma ligação muito mais profunda.

Talvez esteja aí uma das imagens mais bonitas desse conto.

Foi preciso aceitar o vazio para conseguir chegar à profundidade.

Pessoa diante da água encontrada na profundidade do poço, iluminada pela luz que vem de cima

Na minha experiência, aquilo que realmente nos preenche nem sempre vem de fora. Talvez seja necessário olhar também para dentro de nós mesmos e buscar aquilo que nos sustenta, nos motiva e dá sentido à nossa caminhada.

Aquilo que nos cabe fazer, ninguém fará por nós.

Talvez aquela imagem do início nos ajude novamente: antes de conhecermos posses, conquistas ou reconhecimento, nossa existência dependia essencialmente de cuidado, proteção e vínculo.

Reflexão

Talvez o vazio não seja simplesmente a ausência de alguma coisa que precisamos adquirir.

Talvez, algumas vezes, ele seja um convite para olhar em uma direção que evitamos: para dentro.

Passamos boa parte da vida acrescentando coisas ao nosso “poço”: conquistas, bens, títulos, reconhecimento, experiências.

Nada disso é necessariamente ruim.

O problema talvez comece quando esperamos que essas coisas preencham um espaço que elas não conseguem alcançar.

E existe uma provocação ainda maior na história dos poços: às vezes, para descobrir aquilo que realmente existe dentro de nós, talvez seja necessário criar espaço.

Desapegar-se de alguma coisa. Silenciar. Parar. Questionar. Rever escolhas. Reconhecer faltas.

Não necessariamente para viver sem nada, mas para descobrir o que permanece quando aquilo que possuímos deixa de definir quem somos.

Assim como no conto, talvez seja preciso ter coragem para descer um pouco mais fundo.

Pergunta

Em que momentos a sensação de vazio aparece para você?

Quando ela aparece, você procura imediatamente alguma coisa para preenchê-la ou se permite descobrir o que esse vazio está tentando lhe mostrar?


Leia também

Silvio Lima

Autor do Alimentar a Alma.

Saiba mais sobre o blog e seu autor